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Diário de observação: ensaio reflexivo

A prática de observação contínua dos alunos ao longo do ano letivo, anotada em um diário digital, revelou-se uma estratégia valiosa para o acompanhamento individualizado do desenvolvimento dos estudantes. Refletir sobre essa experiência traz à tona tanto os aspectos positivos quanto os desafios e possíveis ajustes que podem aprimorar essa prática no futuro.



A observação atenta permitiu que eu enxergasse nuances que muitas vezes passam despercebidas em uma abordagem mais generalizada. Um exemplo claro é o aluno, cuja timidez extrema e fala baixa mascaram sua rapidez e inteligência durante as atividades. Sem as anotações regulares, sua participação poderia ter sido mal compreendida ou subestimada, enquanto o diário digital serviu como uma ferramenta para garantir que sua competência fosse devidamente reconhecida e estimulada. Um outro aluno demonstrou uma dualidade interessante: embora muito dedicado às atividades e ao caderno, ele tenta equilibrar isso com uma imagem de "descolado". Essa complexidade comportamental não teria sido tão evidente sem o processo contínuo de observação, que também evidenciou seu desafio com o uso excessivo do celular. Reconhecer esse hábito ao longo do tempo ajudou a criar estratégias para minimizar essa distração sem rotulá-lo negativamente, mantendo-o engajado.


A experiência também trouxe revelações surpreendentes. Uma determinada aluna, por exemplo, no início do ano não parecia despontar como uma "promessa acadêmica". No entanto, ao final do ano letivo, suas atitudes surpreenderam: o empenho e a busca por conhecimento se intensificaram de maneira notável. Essa evolução, registrada em diversas fases no diário digital, foi fundamental para adaptar o suporte oferecido a ela, garantindo que seu potencial fosse aproveitado ao máximo.


A experiência de observar os alunos, também revelou comportamentos inesperados. Um aluno em especial, embora dedicado, revelou uma tendência a se distrair facilmente com atividades alheias, como tocar violão ou desenhar. Essa característica foi percebida de maneira gradual, e o diário digital ajudou a identificar padrões. Outra aluna apresentou uma característica inusitada: “dorminhoca”, mas altamente dedicada quando o tema lhe interessava. Essa combinação curiosa demonstrou que o interesse pelo conteúdo pode ser um motor poderoso para engajamento, mesmo em alunos que, à primeira vista, parecem desmotivados.

Outra descoberta interessante foi sobre uma aluna com um enorme potencial acadêmico, mas que enfrenta grandes desafios externos, como problemas de saúde e responsabilidades familiares. O acompanhamento sistemático permitiu que eu percebesse o impacto dessas questões na frequência e rendimento dela, além de ajustar expectativas e estratégias para ajudá-la, sobretudo no que diz respeito ao sonho de ingressar em uma faculdade de prestígio, como a USP. Sem esse acompanhamento detalhado, poderia ser fácil perder de vista o enorme potencial que Ariadne possui.


Embora o diário digital tenha sido uma ferramenta eficaz para acompanhar o desenvolvimento dos alunos, algumas melhorias podem ser feitas. Uma questão central é o tempo dedicado à reflexão e ao registro. Muitas vezes, o ritmo acelerado do ano letivo não permite que as observações sejam feitas de maneira tão detalhada quanto seria ideal. Estabelecer momentos fixos ao longo da semana para esse registro pode garantir que as observações sejam mais precisas e aprofundadas.


Além disso, seria interessante complementar o diário com feedback regular dos próprios alunos. Ao compartilhar com eles algumas das minhas observações, poderia surgir um diálogo que me permitiria ajustar minha percepção com base na autorreflexão dos estudantes, criando uma prática mais colaborativa. Por exemplo, poderia haver uma conversa sobre como equilibrar dedicação acadêmica com outras questões como o desejo de um aluno específico em ser visto de maneira "descolada", ajudando-o a entender que uma coisa não precisa anular a outra. Outra melhoria seria criar planos de ação mais específicos e direcionados para cada aluno com base nas observações. 


A prática de observação contínua através de um diário digital se mostrou uma ferramenta poderosa para captar o desenvolvimento e as necessidades individuais dos alunos. No entanto, há espaço para aprimoramento, principalmente no que diz respeito ao tempo dedicado às anotações e ao envolvimento dos próprios estudantes no processo. No fim das contas, essa prática reforçou a importância de olhar para além das evidências imediatas e enxergar as complexidades e potencialidades que cada aluno carrega consigo, mesmo quando elas não são imediatamente óbvias.


Professor Douglas Faria Soares

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